O (precário) estado da arte

Faço-me acompanhar da voz de José Mário Branco (para sempre vivo!) e a sua A Cantiga É Uma Arma – xs artistas têm sido companheirxs de todos os dias contra o tempo parado. Foram-no sempre, independentemente do bicho que estivesse lá fora.


A pandemia da Covid-19 inflamou a precariedade do sistema - não a provocou, revelou-a.


Diariamente, multiplicam-se as evidências e os casos expostos de despedimentos coletivos, rompimento de contratos, assédio laboral e outras promiscuidades. Agora que xs artistas nos entraram em casa e olhámos para elxs, é urgente olhar para os números e para a situação de precariedade crónica que enfrentam, apenas agravada pela pandemia.


O Sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, do Audiovisual e dos Músicos (Cena-STE), inquiriu, entre 18 e 26 de Março, 1.300 profissionais do setor da Cultura, sendo que do resultado deste inquérito é urgente sublinhar: a) 85% dos trabalhadorxs inquiridos são trabalhadorxs independentes, a recibos-verdes, cujo Indexante dos Apoios Sociais (IAS) atribuído se limita ao insignificante valor de 438,81 euros, não prevendo qualquer outra proteção laboral; b) no período entre Março e Maio, estima-se que o cancelamento de projetos culturais represente dois milhões de euros, o que se traduz numa perda de 1.500 euros em média por trabalhadorx; c) em cada 100 trabalhadorxs do setor cultural, 98 foram afetados pelo cancelamento de projetos desde o início da pandemia; d) o setor cultural será dos mais prejudicados a longo prazo, dado que não se prevê uma recuperação significativa das faturações de bilheteira após o final da situação de isolamento.


No passado mês de Dezembro, o ator José Lopes foi encontrado sem vida numa tenda em Sintra. A falta de trabalho despejou-o, levou-o para a rua, para a tenda onde acabou os seus dias sozinho. O caso de José Lopes não é isolado, nem pode ser esquecido, é a tragédia do estado da arte em Portugal – precária, descartável, despejada e morta.


Em Democracia, a Cultura terá de ser necessariamente um Direito – acessível a todxs, terminando com a elitização dos espectadorxs, e resgatando xs que nela trabalham da precariedade que xs assombra.

Fundos/Recursos para Artistas


Lista de Recursos para Artistas em Resposta ao Covid-19

Lista ​compilada em resposta ao problema do novo coronavírus, com recursos, ideias e informação para apoiar artistas e freelancers.

É uma lista em constante atualização, e se desejares adicionar items à lista, envia links para catarinavg@gmail.com

Fundo de Apoio para Artistas de Lisboa/Covid-19

O Anjos70​ - um ambiente de criação artística com uma oferta cultural diversificada - organiza uma iniciativa que consiste num fundo com o objetivo de ajudar o maior número de artistas em Lisboa, dando especial atenção às comunidades já fragilizadas antes do impacto do COVID-19: artistas mulheres cis, trans, não-binárixs, e de diversidade funcional, neurodiversidade e neuroatipicidade. Xs organizadorxs não serão beneficiadxs de qualquer forma - todos os fundos serão distribuídos por artistas.

Se és artista e estás em situação vulnerável, preenche este formulário.


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