Quarentena que nos afasta, Feminismo que nos une

Texto por Joana Pires Teixeira

Se a COVID19 não vê género, classe económica, situação profissional ou habitacional, o mesmo não é verdade para o seu impacto na nossa sociedade -  o que esta pandemia vem expor são as várias condições de vulnerabilidade das mulheres que, em tempos de crise, se agravam.


Quando surgiram as primeiras recomendações de distanciamento social e o apelo ao recurso ao teletrabalho, ficou claro o objectivo - a necessidade de conter a transmissão da doença para evitar a sobrecarga do Serviço Nacional de Saúde.


Ficou claro também um dos pressupostos com que as recomendações foram construídas - a nossa casa é o espaço seguro para nos protegermos.

Sê-lo-á para grande parte da população, mas não o é para toda.


Não o é para as famílias, muitas delas compostas por mulheres sozinhas com filhos e filhas, que foram sendo despejadas das suas casas e cujas soluções oferecidas têm caráter de emergência social, por definição temporário.


Não o é certamente para as mulheres que vivem em contextos de violência doméstica, onde a casa representa o espaço das agressões invisíveis e caladas, e onde as redes de apoio dificilmente se infiltram.


Não o é para as pessoas migrantes que trabalham na agricultura para quem a definição de casa passou a incluir contentores sobrelotados.


Não o é tão pouco para aquelas de nós que são vítimas de transfobia por parte dos familiares com quem dividem o seu espaço vital.

A casa é, contudo, apenas uma variável desta equação complexa.


Quantas de nós poderão atravessar este período de isolamento em regime de teletrabalho ou manter o seu posto de trabalho? Quantas de nós terão direito às prestações sociais?

Os vínculos laborais precários, sabíamos há muito, quebram-se à menor corrente de ar. Sabíamos também que as mulheres são maioria nestas contas.


Falamos de dados, mas falamos também de situações concretas. Falamos das imigrantes que, independentemente de descontarem para a Segurança Social há tempo suficiente para terem acesso ao subsídio de desemprego, não o poderão receber porque o SEF não dá resposta aos processos de regularização dos seus documentos;

Falamos das trabalhadoras do sexo, cujo trabalho as coloca em risco agravado mas não é sequer reconhecido como tal, e serão invisíveis uma vez mais aos olhos do Estado.


O confinamento vai continuar a sublinhar as desigualdades de género também no seio familiar. Será para tantas a derradeira prova da fraca repartição do trabalho doméstico. Quantas de nós passarão estas semanas a assegurar, além do seu trabalho, o apoio ao estudo dos filhos e a assistência familiar, a cozinhar e limpar a casa, sem que seja sequer equacionado uma justa divisão deste trabalho?


É preciso aproveitar este momento para ver com atenção o que de melhor conseguimos fazer enquanto comunidade, mas também para dar voz às fragilidades que o sistema capitalista e o modelo patriarcal esconderam muito mal debaixo do tapete.


Sabíamos e confirmámos: este sistema não nos serve.


Com este mote iniciamos a quarentena feminista. Para visibilizar todas as mulheres, entender os diferentes impactos nas nossas vidas e refletir sobre os passos que queremos dar.


O feminismo não será contido, nem se distanciará - estará mais próximo que nunca para mostrar que estamos juntas e que o futuro está só a começar.

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